sábado, 19 de setembro de 2015

Sobre Kramer vs. Kramer

Sabe aquele filme que fica na sua listinha por muito e muito tempo, até que um dia você acorda, decide assisti-lo e ele é um soco imenso em seu estômago? Foi isso que aconteceu comigo no último fim de semana, quando fui ver Kramer vs. Kramer. Por que doeu tanto? Acho que porque, como há muito tempo não acontecia, consegui ligar o filme a diversos acontecimentos da minha vida. 

Kramer vs. Kramer é do final dos anos 70 e tem a Meryl Streep e o Dustin Hoffman no elenco. Eu sei, também me pergunto o motivo de ter demorado tanto tempo pra assistir... Mas tudo bem, porque acredito que tudo tem um momento certo pra acontecer na vida, até os filmes!

Na história, a Meryl é Joanna, uma mulher que deixou a profissão para se tornar mãe e esposa. Então um dia, se sentindo mal pela vida que estava levando e pensando que o fato de estar infeliz fazia com que não fosse uma boa mãe, decide abandonar casa, marido e filho para descobrir quem realmente ela é. Quem passa a tomar conta do pequeno Billy, então, é o seu pai, Ted, personagem do Dustin, que até então vivia louco pelo trabalho, mas que tendo que cuidar de uma criança é obrigado a deixar o chefe esperando algumas vezes.




Sou filha de pais separados, mas diferente da maioria das pessoas que cresceram morando em duas casas, só fui viver essa realidade já adulta, aos 21 anos. E, olha, foi muito, muito difícil. Quando eu era criança, morria de medo de não ter um deles por perto. Mas na hora que a separação de fato aconteceu, meu medo não era mais eles não estarem perto de mim, mas não estarem perto um do outro.

Como boa virginiana, eu tentei carregar o que estava sentindo sozinha, o que não foi uma boa ideia. Enfim, sempre achei que esse sofrimento era maior por eu ser adulta e ter que tomar conta de tudo, mas com o filme percebi que o sofrimento é igual, simplesmente porque não importa a idade, nós não sabemos lidar com expectativas que não se concretizam.

Billy não sabe se sente raiva ou pena da mãe, se ajuda ou pune ao pai. Isso tudo porque se sente culpado pelo que aconteceu, que é o sentimento de muitas crianças (e adultos) nesse momento. E isso é um tremendo erro, já que na maioria das vezes não existem culpados, só pessoas que querem ser felizes.
"Você falhou na relação mais importante que teve até hoje?" 

Outro ponto importante do filme é a questão da maternidade. Já vi muitas mulheres serem julgadas pelo fato de não quererem ser mães ou não se sentirem completas sendo. Joanna ama ao filho, mas sabe que para se tornar plena precisa de mais que aquilo, e, por conta disso, decide buscar seu caminho. É uma discussão tão pertinente essa, porque já se passaram mais de 30 anos do filme e quase nada mudou. Muitos ainda dão para a mulher o papel único na vida de ser mãe. E tem também o lance da paternidade. Ted quer ter a guarda do filho, se sente capacitado para isso, mas ele é “apenas” o pai do garoto.

Isso fora o problema do emprego. Imagine só que você tem um filho e precisa trabalhar para sustentá-lo, mas ninguém te dá um emprego justamente por causa da criança. Ai fica difícil, né? Ted não teve problemas em entrevistas, mas muitas mulheres têm. Mesmo manter um trabalho se torna complicado quando você precisa concilia-lo com jornada dupla, como tantas fazem. É como diz em um dos cartazes do filme:


"Ted Kramer está aprendendo o que dez milhões de mulheres já sabem"


Pra terminar, não preciso nem falar da atuação desses dois né? Primeira cena eu já tava chorando de soluçar.

Vale lembrar que Kramer vs. Kramer é daqueles filmes que você precisa assistir de coração muito aberto! Depois volta aqui e me conta o que achou :)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre gentileza

Vamos falar sobre assunto sério, tipo amor, empatia e ser bacanas uns com os outros? Há um tempo atrás vi um post muito bonito do Josh Radnor (aka Ted Mosby) sobre gentileza. Leia aqui (em inglês).

Tem uma parte que adoro. Fiz uma tradução bem mais ou menos dela:

"Realmente me choca quando eu encontro pessoas que pensam que ser gentil não é importante. Porque eu acho que é só o que importa (...). Não se trata de ser “bom” (um conceito, no mínimo, pesado) ou “legal” (...). É sobre compaixão, sobre reconhecer que todos nós passamos por coisas de forma particular, independente de nossos status sociais.

Não somos juízes para julgar quem é digno de nossa gentileza ou não. Nós só precisamos ser gentis, incondicionalmente e sem segundas intenções mesmo – ou melhor, especialmente, –  quando preferíamos não ser. Para mim, é simples e não totalmente altruísta: quando sou gentil, me sinto bem; quando não, me sinto horrível."

Josh, vamos casar? 
Costumo pensar que boa parte dos problemas do mundo seriam resolvidos se as pessoas levassem a sério esse lance de ser gentil e ter empatia com as pessoas. É uma questão que vai tão além da educação. Na verdade, é sobre amor mesmo.

Uma vez li que algumas pessoas seguem o ideal de "amar ao próximo como a nós mesmos" considerando "próximo" não no sentido daquele que está perto, mas no de igual, ou seja, amam aqueles que são parecidos, possuem os mesmos gostos e convicções. É um amor narcisista, o mais triste dos amores, já que não parte do princípio da empatia e do respeito, de entender, como Josh disse, que os outros também tem seus dilemas particulares.

Tô aqui fazendo esse textão porque tenho lido e ouvido muitas coisas que me deixaram extremamente chocada. É só ver os comentários em portais para encontrar aqueles sujeitos que pensam que se eles não passaram por determinada situação, ela não existe no mundo. "Nossa, já vem com esse mimimi" é a frase padrão dessas pessoas. Porra, é tão difícil ouvir, compreender e acolher o lado que sofre?



Desse amor narcisista nasce também a solidariedade seletiva. Uma tristeza... Há um tempinho estava em um evento de voluntariado quando ouvi de uma mulher que "esses haitianos tinham que ser expulsos do país, afinal, eles estão roubando empregos". E sim, essa mulher dedicava um tempo de sua vida para a caridade, para o amor ao "próximo". Lembrei disso quando vi a foto do Aylan, a criança síria que acabou morrendo quando, assim como os haitianos aqui, procurava uma vida melhor na Europa.

Não tô dizendo que é fácil virar Madre Tereza de Calcutá ou Buda ou qualquer outra personalidade que te inspire paz. Vez por outras vamos errar, é claro. Mas seria bacana se respeitássemos um pouquinho mais os outros e tentássemos ver os dois lados de cada história. Há muito que não sabemos sobre o mundo. Em vez de falar e julgar, ouça e aprenda.

Ouviu,  aprendeu e ainda assim acha que sua opinião é importante e deve ser ouvida? Ótimo! Porém, antes de começar a gritar e xingar, lembre-se que existe n+1 possibilidades de se dizer a mesma coisa, sem precisar ofender ninguém para isso.

Bom, precisava desabafar depois de ler um bocado de abobrinha por aí. Tudo o que eu disse aqui é meio óbvio, mas acho que falar de amor é sempre importante